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Poluição

Lugar se transforma em grande esgoto 




O Canabrava é hoje um dos principais responsáveis pela poluição do Rio Mundaú, dentro da bacia hidrográfica da região







Gazeta de Alagoas


LELO MACENA - Repórter


Foto: José Feitosa








Em Santana do Mundaú, crianças pescam e tomam banho em rio infestado de caramujos







União dos Palmares - Quando era menina, a dona de casa Marluce Nicácio de Souza, 47, gostava de brincar nas águas do Riacho Canabrava, que outrora era responsável por abastecer União dos Palmares. Generoso, o riacho que corta o Centro da cidade também oferecia o peixe a quem se arriscava na pesca. “Hoje em dia, o mau cheiro que vem dele invade as casas e nos incomoda”, diz Marluce, que mora a poucos metros do leito do rio, próximo à ponte “Mata Quatro”, batizada assim por causa do assassinato de quatro jovens, ocorrido há cerca de três anos.



A filha pequena de Marluce está terminantemente proibida de qualquer contato com as águas do Canabrava. “Ela já adoeceu por causa dessa água. Na época de chuva, o rio sobe e invade as casas. A água é esgoto puro”, diz a dona de casa.


Alagoas recebe sujeira de Pernambuco




União dos Palmares - Quando chega à cidade de Santana do Mundaú, a 106 quilômetros da capital, sua porta de entrada em território alagoano, o Rio Mundaú já carrega a imundície e traz as marcas das agressões sofridas em quinze municípios pernambucanos, pelos quais passou desde sua nascente, em Garanhuns.



Atacado com violência em seu percurso pernambucano, o Rio Mundaú também sofre em Alagoas pela ausência absoluta de saneamento básico em todas as cidades banhadas por suas águas. A consequência é a proliferação de doenças.



Em Santana do Mundaú a situação é dramática. Lá, o rio é sinônimo de esquistossomose, a doença que aflige o santanense. Em 2005, quase 40% da população estava infectada pela doença. Para se ter uma ideia da gravidade do caso, segundo recomendação do Ministério da Saúde, o índice aceitável de infestação é de até 5% da população.


Esquistossomose ameaça população


Santana do Mundaú - Luis Fernando dos Santos, 12 anos, o Buiú, e o primo dele, Diogo Alves, de 7 anos, já ouviram conselhos para se afastar do rio e não querer conversa com o tal de “aruá”, o caramujo que carrega a esquistossomose dentro dele. Mas os dois não têm escolha. É de dentro das águas sujas do Mundaú que eles tiram a “mistura” do almoço. Dependem dos peixes mirrados que ainda encontram no rio.


Com uma espécie de peneira, Buiú revira a lama do rio, enquanto Diogo fica encarregado de guardar dentro de um saco plástico os peixinhos que os dois vão comer no almoço. Quando a peneira sobe do fundo da lama, ao invés de peixes emergem caramujos. Buiú os pega com as mãos e, antes de devolvê-los ao rio, faz pose para o repórter fotográfico da Gazeta, José Feitosa.



Rio Canhoto também pede socorro



São José da Laje - A situação de degradação dos afluentes do Rio Mundaú se espalha pela região serrana dos quilombos e chega a São José da Lage, ao Rio Canhoto, famoso pelas cheias furiosas, numa das quais, em março de 1969, causou destruição e matou quase 1.500 pessoas.


 
Oh! Santo Deus Criador/ Dá-me força e coragem/ Pra contar sem pabulagem/ A catástrofe que se deu/ Lá em São José da Laje. No dia 13 à tardinha/ Começou a chuviscar/ No vale do Rio Canhoto/ Isto eu posso provar/ Porém ninguém sabia/ Que a Laje neste dia ia se acabar. São os dois primeiros versos do cordel de autoria de Valdemar Matias, que conta o drama da cheia histórica do Rio Canhoto, da qual os lajenses mais antigos jamais esquecerão. O fato ganhou repercussão internacional considerado o principal afluente do Mundaú, ao lado do Rio Inhumas, dentro da bacia hidrográfica da região, o Canhoto também pede socorro e é considerado atualmente um rio “morto”.






Comitê de bacia pode ser redenção de Rio Mundaú




União dos Palmares - A formação do comitê da bacia hidrográfica da região pode ser a redenção do Rio Mundaú e de seus principais afluentes em Alagoas e Pernambuco. Mas a providência deve demorar. Pernambuco já concluiu os trabalhos iniciais para a formação do comitê federal e aguarda que o mesmo processo seja concluído no lado alagoano, para que seja dada sequência aos trâmites burocráticos.



“O processo é demorado. Acredito que a formação do comitê só deva ocorrer no fim de 2011. Estamos concluindo os termos de adesão dos municípios situados na bacia”, diz Eduardo Santa Rita, gerente de Apoio a Comitês de Bacias em Alagoas da Secretaria de Recursos Hídricos.



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