Eu só quero ser feliz, andar tranquilamente na cidade em que nasci...

Por Josivaldo Ramos
A frase acima é um plágio de um funk carioca da década de 90, mas que traduz o meu mais profundo sentimento. Eu que vivi os anos áureos de União dos Palmares, onde transitávamos pelas madrugadas após os bailes na Palmarina em busca de um bom lugar para fazer um lanche, bater um papo com os amigos.
Eu que joguei no infantil do Bangú Atlético Clube e acordava as cinco da matina para os treinos no campo da Rua Nova, lembro que era muito ruim de bola, mas era disciplinado, o que me fez permanecer no elenco por bons anos de minha infância.
Lembro ainda dos clássicos jogos entre os times de futsal e handebol do Santa Maria Madalena e do Mario Gomes de Barros na Quadra Municipal. Os times faziam suas partes dentro de quadra, mas a festa era mesmo fora dela, multidões de ambas as escolas lotavam a quadra municipal em uma verdadeira guerra de paz e alegria.
Tenho uma profunda saudade das Feiras de Ciências Municipais. Tive o prazer de participar da V Feira Municipal de Ciência e Cultura, o ano era 1995, o tema AIDS. Um tema inovador, polêmico e questionável para a época, sobretudo sendo tratado por meia dúzia de crianças.
Por tudo isso e muito mais me ponho a perguntar o que estão fazendo com União dos Palmares? Porque querem acabar com sua história? Dilacerar as famílias palmarinas, afastar os verdadeiros amigos. A quem interessa toda essa transformação?
Lembrei de trechos de uma música que o saudoso Mário Camelo costumava cantar acompanhado dos acordes de sua sanfona em um grupo de amigos, aos quais sempre seguia: “Cadê a árvore onde eu armava minha rede? Não há mais verde por aqui nesse lugar.... Que gente é essa que chegou em minha terra? Destruiu, não deixou serras, muita fumaça no ar....”
Outra música também me vem à cabeça, essa do cantor Flávio José: Desigualdade rima com hipocrisia, não tem verso nem poesia que console uma cantador... A natureza na fumaça se mistura, morre a criatura e o planeta sente a dor... Televisão de fantasia e violência, aumenta o crime e cresce a fome no poder. ...Não sou dono do mundo mas tenho culpa, pois sou filho do dono...”
Embora algumas pessoas ainda não tenham percebido é apenas pelo direito de andar tranquilamente na cidade onde nasci, de poder acompanhar meus filhos e netos fazerem o mesmo, mas não apenas, pois luto para que você também possa fazer o mesmo andar tranquilamente na cidade onde nasci.
Mas para que isso aconteça é preciso reconstruir a cidade, devolver aos cidadãos o orgulho de serem palmarinos, permitir que a sociedade civil se organize e que tenha espaço na reconstrução da cidade. Desta vez não vim crucificar os canalhas que se locupletam da decadência palmarina, mas conclamar aos meus conterrâneos a reagirem, a se envolverem e darem sua parcela de contribuição neste processo que só será alcançado com a participação de todos.
Esta semana um fato me chamou a atenção ao analisar os dados oficiais do estado sobre a violência em União dos Palmares me debati com um dado alarmante, pois segundo a PM/AL desde o início de 2010 já foram assassinadas 16 pessoas em União dos Palmares este ano, contudo 11 desses assassinatos ocorreram no mês de fevereiro. Vale a ressalva de que estamos falando de dados oficiais.
Então quero dizer a todos que não é possível que apenas as famílias dessas pessoas estejam incomodadas com as perdas dos entes queridos, pois hoje são elas e a continuar desta forma amanhã poderá ser as nossas famílias.
É preciso se indignar com a situação, é preciso demonstrar essas indignações, é preciso cobrar das autoridades resultados concretos, palpáveis e urgentes. A força social é grandiosa, mas só se sabe realmente o poder desta união, quando ela ocorre, pois antes disso tudo é mera especulação.
Quando falo de um processo de reconstrução da cidade estou falando de uma limpeza política, renovação por completo de todos aqueles que representam o povo, mas não falo só de política partidária, pois entendo e sempre tenho defendido o valor das iniciativas populares, o exercício do verdadeiro significado da cidadania, é preciso reorganizar as associações de bairros, os grupos ligados as igrejas, é preciso criar ONG’s que venham preencher e sobretudo cobrar das autoridades providências em áreas em que o governo (Seja ele municipal, estadual ou federal) esteja sendo omisso.
Se de fato queremos que nossos filhos e netos vivam em um lugar parecido com o que vivemos em nossa infância é preciso fazer algo urgente, pois daqui a pouco tempo não haverá mais o que fazer, pois não haverá mais cidade ou cidadão para que nos preocupemos. Pensem nisso!
|